Pessoas que encostam cartões contactless



A pandemia do coronavírus alertou o mundo para imensos problemas existentes no seio das nossas sociedades. Desde o ato de ignorar que o vírus não conhece fronteiras, esquecendo a vacinação nos países mais pobres, à realidade desumana com que parte da população teve de viver o confinamento. Durante os últimos meses, muitas foram as situações que não obtiveram uma resposta adequada num mundo que se diz global e unido.
Morreram, até à data, quase 5 milhões de pessoas, mas a dor mais forte diz respeito a algumas das que, infelizmente, sobreviveram.

O problema é que, com as restrições e soluções que foram necessárias criar, abriu-se uma caixa de pandora repleta de chalupas, malta que gosta de criar outras realidades na sua cabeça para evitar ter de compreender a nossa. Tivemos os negacionistas, que diziam que o vírus era uma mentira, os conspiracionistas, que viram no Youtube um médico a falar de patentes e a dizer que tudo isto era um plano criado pela Nova Ordem Mundial, os antivacinas, que deixaram de usar a porta do frigorífico e passaram a afixar notas em braços de vacinados, e, os piores de todos, a malta que tira o less ao contactless.

Num país onde tantos acreditam que o Joe Berardo revelou no Facebook como todos os portugueses podem ter um rendimento mensal extra, não podemos esperar uma capacidade de dedução muito elevada. Esta pode parecer uma questão pequena, mas pequeno é o raciocínio necessário para entender que o aconselhamento da utilização do contactless, numa altura em que nos é pedido para evitar contacto, quererá dizer alguma coisa.

Não consigo compreender a dificuldade de deixar um ou dois centímetros entre o terminal e o cartão. Será receio de que o tempo da transferência seja proporcional à distância? Ou achar que malta como o Berardo pode deitar a mão à massa naquele vazio de segurança? Ou será apenas a burrice de um povo que prefere aprender a testar e não a ler instruções?
Na mesma medida em que é estranho pensar que tantas pessoas acham inseguro pagar à distância, num país onde é popular usar a datas de nascimento como pin, é complexo entender quem opta pelo sistema em questão, mas não o sabe utilizar. Alguns temem o contactless, mas eu temo quem o vai usar

É complicado tirar conclusões ou chegar à raiz da questão. Numa pandemia da ignorância, é difícil imperar o conhecimento. Se este é o barco em que todos estamos, espero que caia por uma das bordas da Terra.

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