Pessoas que dizem de hoje a oito
Numa sociedade que atribui significados especiais aos números, é importante falar do quão especial é preciso ser para não os saber utilizar.
Se estivéssemos a falar, por exemplo, da regularidade das publicações deste blogue, diríamos que nos voltaríamos a ver na próxima semana ou daqui a sete dias. Porém, e porque a inteligência não toca a todos, temos uma grande fatia populacional que prefere optar pelo caminho da estupidez, afirmando que temos encontro marcado de hoje a oito.
Certamente que já ouviram a argumentação de que o oito é utilizado, porque a contagem começa no hoje. Contudo, e convidando-vos a fazer este raciocínio, se fizermos a desconstrução decrescente da expressão, concluiremos que de hoje a dois é amanhã e de hoje a um é hoje, o que poderia ser, no máximo, debatido filosoficamente, se do outro lado houvesse alguma capacidade para tal.
Mesmo assumindo que de hoje a zero é o agora, o um teria sempre de ser sinónimo de um período de vinte e quatro horas, sendo completamente impossível ficar situado no mesmo dia, exceto no dia em que se atrasa o horário de verão para o horário de inverno.
Uma vez que existem expressões alternativas, a utilização do "de hoje a oito" é, para além de um sinal de profunda ignorância, uma provocação social.
É tão grave como a forma que algumas pessoas utilizam para dizer as horas: ao invés de dezasseis e quarenta e cinco dizem quinze para as dezassete. Uma vez mais trata-se de um problema de lógica: eu não digo, usualmente, que estudo em Aveiro na universidade, mas sim na universidade em Aveiro. Quando dizemos primeiro a parte inferior e só a que lhe fica acima, o recetor vai necessitar de um raciocínio extra, no caso das horas, de recordar os minutos que foram ditos em primeiro lugar.
Não desejo com isto o fim de coisas como o programa "5 para a meia-noite". Aliás, chamar-se "Vinte e três e cinquenta e cinco" seria um título muito estranho, apesar de ter algum potencial humorístico. O problema é que esta insistência em dizer as coisas de uma maneira confusa, quando temos outras soluções, tira-me anos de vida e força-me a desejar-vos a morte.
Numa realidade em que o tempo foi dividido pelas pessoas, é estranho pensar que são elas que arruínam essa divisão. A falta de lógica de alguns é, matematicamente falando, proporcional à sua falta de noção. No entanto, enquanto há vida há esperança e, por isso, a quem pensa, até para a semana, aos restantes, até de hoje a oito dividido por zero.
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